Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão.
Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.

João Cotrim Figueiredo, muito obrigado

Tiago Antunes “não tem capacidade para ser provedor de Justiça”

No final, o jornalista disse-lhe “João Cotrim Figueiredo, muito obrigado. Até para a semana.” Antes, o gratulado tinha iluminado várias e complexas questões, uma delas esta:

"Tiago Antunes fez parte de um conjunto de pessoas que operava nos blogues no início deste século, blogues que, se soube mais tarde na Operação Marquês, que eram financiados por Carlos Santos Silva. Que se dedicavam sistematicamente, não só à protecção de Sócrates, como no caso Freeport ou no caso da licenciatura tirada ao domingo, que se encarregavam de denegrir os adversários, de intoxicar a opinião pública, de devassar a vida privada, de insultar. Portanto, a forma de fazer política de insulto, esta forma baixa de fazer política que hoje nós tanto criticamos noutros quadrantes, nasceu com estas pessoas. [...] Uma pessoa que não percebe o mal que fez, e o mal que fez à democracia, instituindo o hábito de insultar adversários, o hábito de mentir sobre adversários, devassar a vida pessoal de adversários, é alguém que não tem condições para ser Provedor de Justiça."

É muito difícil escolher por onde começar, neste dilúvio de mentiras e calúnias. Talvez começar pelo começo: o que foram os blogues? Hoje, são anacronismos folclóricos. Entre 2005 e 2015, o período de actividade do Câmara Corporativa, os blogues políticos começaram por ser tertúlias que reuniam pessoas com actividade partidária, jornalistas e interessados das mais diversas origens com um nível de educação superior. Ou seja (até 2008 ou 2009), nos blogues conviviam aqueles que na sociedade estavam mais capacitados para o pensamento crítico. Foi a idade de ouro, marcada por estonteante criatividade e socialização entre diferentes. Que audiências geravam? Irrisórias em volume, muito menos de 1% do que possa ser considerado como comunicação social. Com algum poder de influência mediática por via da frequência de jornalistas, mas mesmo por aí sem qualquer poder editorial nas redações profissionais, obviamente.

A partir do 2009, deu-se um duplo fenómeno: (i) o Facebook atinge massa crítica que torna acto contínuo a blogosfera obsoleta; (ii) a direita usa estrategicamente os blogues como instrumento de campanhas negras. Tendo toda a imprensa na mão, a direita passava a usar os seus blogues como espaços de ensaio propagandístico, e passava a usar os blogues que pudessem ser conotados com o PS como alimento de teorias da conspiração que envolviam, na sua origem, a liderança do PSD, a Casa Civil, o Ministério Público e alguns juízes. Pacheco Pereira, na sua soberba encardida, apontou em 2009 os canhões contra três blogues e jurou que eram produzidos pelo Gabinete de Sócrates. Mentiu (ou alucinou) a soldo do esgoto a céu aberto chamado Cofina, nunca pediu desculpa.

Como (infelizmente) não me pagam para estar aqui a teclar, salto para o Figueiredo. Este crápula, 17 anos depois, mente sobre Carlos Santos Silva, mente sobre o blogue Câmara Corporativa, mente sobre os blogues da direita (ou de qualquer outro poiso ideológico), e, acima e antes de tudo, mente sobre Tiago Antunes. O grau e a tipologia das suas mentiras exibem um desplante tal que chegam a despertar simpatia. Porque é preciso ser chanfrado dos cornos, e não ter vergonha dessa condição, para ir largar aquelas bacoradas na TV.

O jornalista ouviu tudo caladinho. E depois fez uma pergunta para mostrar que concordava. No final, agradeceu. E porquê? Porque é para isso que lhe pagam. Para agradecer, agradecido.

Aparições

Há dias, numa aula, o professor perguntou “Sabem quem é o Passos Coelho?”. Um dos alunos respondeu “É o corrupto?”. “Não”, explicou o professor, “esse é o Sócrates.” Ninguém sabia quem era o Passos Coelho. O aluno que apontou ao corrupto tentou de novo com “É do PSD?”. Recebeu os parabéns do professor.

É uma turma com alunos entre os 17 e os 19 anos. Em 2018, quando Passos saiu da liderança do partido, tinham entre 9 e 11 anos. Em aulas anteriores, a turma tinha manifestado o seu apoio generalizado às mensagens do Chega contra os imigrantes e contra os políticos. Quase todos já podem votar.

Isto para dizer que a escola pública é uma linha da frente na defesa do que mais importa.

Nas muralhas da cidade

«Oficialmente, neste como noutros casos, os responsáveis policiais optam quase sempre, por cá e em muitas outras policias mundiais, por fazer avançar a metáfora da maçã podre num cesto de fruta saudável. O caso isolado. Acontece que nos últimos anos assistimos a vários casos isolados com um padrão que, não sendo tão grave, se assemelha na forma de agir. No caso de Alfragide foi provada violência ilegal sob detidos em custódia; no caso Claúdia Simões na Amadora passou-se rapidamente de um caso de uso da força legítima e legal, no momento da detenção, para a violência ilegal enquanto a detida estava em custódia; no caso de Olhão, um imigrante foi espancado sob custódia, ainda algemado, tendo vindo a falecer num hospital em cuidados intensivos; no Alentejo, uma comunidade inteira de imigrantes, na sua maioria timorenses, foi espancada e explorada vivendo em condições de autêntica escravatura durante demasiado tempo por vários polícias da GNR e um outro da PSP.

Vamos elencar só estes para afastar desde já a assunção do caso isolado. No caso do Rato, os deputados ouviram, mas mais nada se passou. Nenhuma iniciativa parlamentar foi tomada, preferindo-se as trocas de bitaites casuísticos e de lugares-comuns.»


Violência policial nas esquadras da PSP, e agora?

Começa a semana com isto

«The deportees were packed into wooden railway carriages that had previously been used for goods, and sometimes livestock. Between 60 and 80 people were forced into each, packed so tightly that they were unable to sit. (When the carriages were used to transport horses, the limit was six animals per carriage.)

“There were no windows, no toilets, no food and water,” says Santerini. “It was a 1,250-kilometer, seven-day journey to Auschwitz, and took seven days. It’s difficult to imagine what they must have experienced.”»


The dark fascist secret hidden beneath one of Europe’s largest railway stations

Revolution through evolution

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Evolution isn’t random. Scientists find the same genes used for 120 million years
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Scientists make stunning discovery that could change our understanding of the Universe
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Dominguice

A violência inaudita, exibicionista, doentia, corporativa que agentes da PSP e militares da GNR cometeram contra os mais fracos dos mais fracos seria possível sem a cumplicidade, quando não celebração, da sociedade com a retórica da violência política de Ventura?

Não, pá. Andaram a chocar o ovo.

Exactissimamente

Imbróglios internacionais sem grande graça

A Rússia é aliada do Irão (e da China e da Coreia do Norte). Apoiam-se uns aos outros. Donald Trump é aliado objectivo da Rússia no que respeita à subjugação da Ucrânia (e não só). Mas, aparentemente, não no que respeita ao Irão, um dos aliados da Rússia. Ao atacar o Irão, principalmente por interesse de Israel, Trump confronta indirectamente a Rússia. A pressão de Moscovo para que a guerra no Irão não prossiga já se faz, entretanto, sentir e a mão do Kremlin nas respostas de Teerão também. Certo é que, neste momento, os bombardeamentos pararam e os bloqueios estão congelados (o que não interessa nada à China, nem a Israel). É evidente que a Rússia está a beneficiar com o bloqueio à exportação de petróleo e gás do Golfo, caso contrário já teria forçado um desbloqueio. Cinismo, um condimento indispensável neste jogo.

O que resta saber? Resta saber como vai o Trump sair desta, se não quiser perder ainda mais popularidade “em casa” (havendo sempre a hipótese de arranjar maneira de não realizar eleições intercalares – ou outras, enterrando de vez a democracia).

Os iranianos têm todo o interesse em que o ocupante da casa Branca saia de cena o mais rapidamente possível. Ou tinham até agora (vamos ver o que os russos conseguem fazer à mioleira do agente laranja, em contraponto com os israelitas e os amigos e familiares judeus de Trump). Mas os russos têm o máximo interesse em que Trump por lá continue, agora que conseguiram a vitória máxima de o instalar e de assumir o controlo da Casa Branca (um enredo digno do mais ousado thriller político). Ainda iremos ver o Irão a elogiar Trump? Não perca as cenas dos próximos capítulos. Em termos práticos, para o resto do mundo, este filme não é entretenimento.

Isto tem um nome, aliás vários

«Na sua intervenção, voltou a alertar para o problema da sustentabilidade da segurança social que considerou ninguém querer enfrentar, para as dificuldades de integração de muitos imigrantes - que vivem "em servidão" em Portugal - e a criticar o atual modelo de IRS jovem, que classificou como "iníquo", deixando um conselho para que os mais novos tomem conta do seu futuro se querem mudanças reais no país.

"A malta que está na política não tratará. Conheço-os todos. A maior parte da malta que está na política quer estar lá. Quer fazer como o dr. António Costa, gerir o dia-a-dia. Arranjar empregos para os amigos. Colocar os apoiantes. Controlar. Mandar, ser obedecido. Porquê? Porque essa é a natureza do poder", considerou.»

Passos Coelho´

Com Cavaco foi muito pior, no discurso solene da tomada de posse, em 2011. Com Passos foi apenas numa instituição de ensino superior; coisa rasca, portanto. Onde ambos estão em perfeita sintonia é na hipocrisia gongórica com que atacam a classe política que lhes deu tudo, de que se serviram, que fruíram até ao limite das suas possibilidades. E no sonso, cínico, populista apelo aos “jovens” para se levantarem e tomarem a Bastilha (ou será a pastilha?) com a sua pureza. A mesma pureza que Cavaco e Passos ostentam, irradiam, quando chicoteiam a malandragem que só quer mandar para oferecer cargos aos amigos. Como o Dr. António Costa, explicou pedagógico o Pedro. Ou Sócrates, diria Aníbal, o mentiroso (o Sócrates, jamais o Aníbal).

Estes números de circo são, sob qualquer ângulo de análise, paradoxais? Sim, mano, mas não só. Também são caixas de Petri da decadência da direita portuguesa. Que começou em Cavaco, com a sua primeira maioria absoluta, e teve em Passos Coelho o seu apogeu. Apogeu provisório, claro. Estes amigos são capazes de ainda bem pior.

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