Há muitas investigações em andamento, mas nenhuma chegou a este ponto com estes resultados. É altamente desaconselhável perder a santa paciência e começar já a festejar, mas esta é uma notícia sem paralelo para diabéticos tipo 1, seus familiares e amigos. Pela primeira vez nesta doença, a esperança deixa-se tocar.
Obviamente, esta aberração não faz cá falta. Mesmo assim, deve ficar.
Do nosso amigo Marco Alberto Alves, recebemos estupendas sugestões:
A hipocrisia dos Feriados é igual, quer se trate dos ditos religiosos (todos católicos), quer dos ditos civis (nem todos de Esquerda).
O que não quer dizer que todos os “celebrem” da mesma forma hipócrita, evidentemente.
Do meu ponto de vista pós-moderno, liberal e reformista, que é no fundo o que eu mais sou, acho que a hipocrisia poderia ser erradicada a contento de todos e do seguinte modo: cada Trabalhador teria o seu PLANO PESSOAL DE FOLGAS (P. P. F.), que poderia escolher livremente (ou, vamos lá, com os constrangimentos mínimos possíveis em função da natureza do seu emprego) de entre o somatório de Sábados, Domingos e Feriados actuais (ou legalmente definido).
Ou seja, partir-se-ia do princípio de que o P. P. F. faria parte integrante do contrato laboral, como o Salário e outras regalias e condições, permitindo assim ao Trabalhador, como ao Empregador, ajustar de forma eficiente os horários de laboração.
É nos cérebros que nasce a cultura, mas é a cultura que molda os cérebros.
Quem se iria filiar no PSF? Para além do fundador, e corte da Madeira, nos primeiros a entrar estariam Valentim Loureiro, Fátima Felgueiras, Isaltino Morais, Mendes Bota, Ferreira Torres, Luís Filipe Menezes, Pimenta Machado, Vale e Azevedo, Pinto da Costa e Manuel Monteiro. Certinho.
Quem mais?
Tenho a sorte de ser amigo da Filipa Palha. E Portugal tem a sorte de ela ser nossa amiga. Porque esta portuense criou a Encontrar+se, associação dedicada ao desenvolvimento, implementação, avaliação e investigação da reabilitação psicossocial das pessoas com doença mental grave. Artur Santos Silva e Miguel Veiga, dois homens que dispensam apresentação, conferem solidez e prestígio institucional à iniciativa. Iniciativa que começou com uma espectacular campanha contra o estigma: UPA. Sem qualquer apoio do Governo, do Ministério da Saúde ou do Conselho Nacional de Saúde Mental, a Filipa conseguiu reunir este grupo de anónimas esperanças em começo de carreira: Zé Pedro Reis (o qual concebeu o projecto musical), Paula Homem, Pedro Tenreiro, Nuno Rafael, Mariza, Xutos, Sérgio Godinho, Rodrigo Leão, Clã, Mão Morta, Camané, Rui Reininho, Xana, Boss A.C., Paulo Gonzo, Cool Hipnoise, Jorge Palma, Dead Combo, J. P. Simões, Balla, Tiago Bettencourt e J. Mário Branco. Ainda não chega? Então, espreita a Comissão de Honra. Desde 2007 que há músicos e profissionais de comunicação (de agência de publicidade a agência de meios, passando por produtoras de vídeo) a entregar — gratuitamente — o seu tempo e talento para a campanha ter peças gráficas, filmes, espaço mediático e canções originais. Vou repetir: canções originais, cujas letras versam sobre a problemática da doença mental. Sim. Do caralho.
Discutir a importância da saúde mental e da reabilitação do paciente com patologia grave é daqueles tópicos que melindram por os julgarmos evidentes ao ponto de não justificarem gasto calórico na conversa. Afinal, esgravatando na ramagem quotidiana, constata-se que é ao contrário: existe estigma, existe abandono, existe violência sobre os doentes e dos doentes sobre a família, vizinhos e estranhos. Visto pelo lado económico e familiar, e fazendo as contas aos milhares de indivíduos afectados em Portugal, é uma calamidade não conseguir reduzir o seu período de inactividade profissional ou social, nuns casos, ou não os conseguir recuperar para a autonomia, em muitos outros casos. Perde-se dinheiro, perde-se saúde, perdem-se vidas mantendo a inércia defendida pelos inertes. Chega de perder mais tempo.
Em Portugal há outras Filipa Palha, com outros nomes, género, idade, competências, percurso, esperanças. Mas com a mesma coragem e alegria. É com elas que vamos partir para os novos descobrimentos: encontrar o caminho legítimo para a independência, fintar o Adamastor que nos afunda num medo colectivo.
«Uma onda muito acima da ficção» no mais recente livro de José Mário Silva
Quando nos anos 80 Ernesto Rodrigues traduziu os «contos de um minuto» de Istvan Örkeni a recepção ao livro foi positiva mas a expressão contos de um minuto não ganhou popularidade em Portugal. «Efeito borboleta e outras histórias» de José Mário Silva (Editora Oficina do Livro) é um conjunto de histórias muito breves cujo ponto de partida é a definição de efeito borboleta: «se uma borboleta bater as asas, algures na Amazónia, pode provocar um tornado no Texas». Aqui se percebe que o amor é difícil: «Meu amor, Esta é provavelmente a última carta que te escrevo. Os meus netos venderão os móveis, deitarão fora o espelho e lerão, talvez com a indiferença de quem nada compreende, estas centenas de cartas que nunca te enviei.» Aqui se percebe que a morte é inevitável: «São sete da tarde. Alberto está na sua área, agitando o braço em semicírculo enquanto espera que algum automobilista se decida a estacionar. Depois de pedir ajuda a uma velhinha num 2CV preto vem a resposta com três notas de 50 euros – Meu filho, toma lá isto mas olha que nunca mais te quero ver nesta vida que levas, ouviste? – mas olhando melhor Alberto descobre uma gadanha no banco traseiro do 2CV. Aqui se aprende que nem sempre a literatura nos salva: «Quando A. M. Sousa publicou o seu primeiro romance aos 31 anos em 2014, a literatura portuguesa levou, nas palavras do crítico José Maurício Palhavã, um choque eléctrico fulminante. Ninguém esperava aquilo. Depois deu-se o previsível colapso. Cenas lamentáveis num talk show. O internamento numa clínica psiquiátrica. A longa travessia do deserto. O culto do silêncio. A vida austera num quarto sem nada. A pose do eremita.» Aqui se descobre o espanto de quem quer escrever um conto e leva com um tsunami em directo no ecran da televisão: «Alguém ligou a TV. Era domingo, manhã radiosa. E no outro lado do mundo uma onda erguia-se muito acima da ficção.»
Randy Pausch partiu no mês passado. Depois de saber que poderia morrer a qualquer momento dentro de 6 meses, fez esta apresentação pública em Setembro de 2007. Falou dos nossos sonhos de infância e da possibilidade de os realizar. Se fores como eu, sabes que o teu tempo vale mais do que o teu dinheiro. Se o vamos gastar, ao dinheiro ou ao tempo, é inteligente procurar lucro imediato, retorno do investimento a prazo ou um sentimento de jactante exaltação por o esbanjarmos como imperadores. Como acontecerá, e às três variantes, a quem puder dispor de 1h16m27s para gastar na palestra supra.
Se gostaste, brinde.

Ó Lopes, estive aqui a ver e, a modos que de repente, acho que não tenho de agradecer-te seja lá pelo que for. Nunca me emprestaste casa, carro ou mulher. Não fazes a menor ideia de quem eu sou. E até aposto que, calhando pedir-te uns trocos na rua, eras capaz de começar a correr com invejável passada para a tua idade.
Temos os capitães-de-mar-e-guerra mais chonés do Atlântico e oceanos adjacentes. O Ágoas queria menos maçãs e nenhumas mãozinhas marotas nas praias algarvias, o Moura queria mais pontos e belas medalhas nas algaraviadas pequineses. Estes velhos marinheiros continuam a gostar de perder o pé. Estranha coincidência entre a física teórica e a teoria do físico ocorreu na mente do presidente do Comité Olímpico Português: do lado da ciência, imaginam-se 11 dimensões no espaço-tempo; do lado da acidência, houve tempo e espaço para imaginar a conquista de 11 medalhas. O bom-senso, ou algum xarope tomado a horas, reduziu o peito para 5 medalhas e 64 pontos. Estávamos em Dezembro de 2007. Em princípios de Agosto de 2008 estabilizámos nas 4 medalhas e 60 pontos, a mielas com a versão 3-4 medalhas. Em finais de Agosto, já há a certeza de ser excelente resultado ter duas medalhas e uns pontitos. Lá mais para Setembro, ninguém arrisca fazer prognósticos quanto ao que seria uma boa prestação dos nossos bravos atletas no mês anterior, mas corre que o pior da crise do sub-olimpismo ainda está para vir.
Pessoa amiga perguntou-me pelo feriado de 15 de Agosto. Apesar dos meus 10 anos de escolaridade em instituições sob responsabilidade da Igreja Católica, mais a 1ª Comunhão, não sabia o que se celebrava para merecer feriado. Tinha de ser algo religioso, mas o quê? E porquê tal informação não estar gravada na minha memória?
A Igreja Católica comunga com o PCP de certas características que me despertam o desejo de lhes pensar a comunicação. Estas vetustas agremiações nunca saberão (e para sua sorte) o que perdem por não me contratarem. Até trabalharia para as duas ao mesmo tempo (e por remuneração irrisória), tamanho o meu entusiasmo. Porque elas estão cheias de boas e excelentes ideias, apenas não sabem como as transmitir, nuns casos, e identificar, noutros. O modo como falam aos fiéis é desastroso, as liturgias são anacronismos, as doutrinas estão estéreis. Desperdiçam tesouros intelectuais e antropológicos como se o mundo não fosse acabar amanhã. E dão origem a perversões escabrosas, como sempre acontece quando não se sabe lidar com os remédios: transformam-se em venenos. Igreja e PCP são duas entidades que odeiam a democracia porque não se querem conhecer a si próprias, não querem filosofar. Filosofar é só para os corajosos, e estes pastores católicos e controleiros comunistas estão esmagados pelo medo.
Portugal não é um país católico, nem sequer cristão, no sentido em que a opinião religiosa já não inspira nem influencia. A espiritualidade nacional está reduzida a raras figuras que não têm voz pública. Mas os ateus, os agnósticos, os seculares e os fiéis de outros credos não se importam com os feriados religiosos. Ninguém se importa, e quase ninguém os celebra. Mantêm-se por inércia e hipocrisia. A esquerda não ousa atacá-los, preferindo a contradição ideológica ao sarilho de ser coerente. E a direita aproveita-os para os gastar em futilidades, tenha deixado há muito de os respeitar. É que a direita, lá está, também não é católica nem cristã.
O povo porta-se mal ou atrofia nas assembleias, abomina as cooperativas, é individualista e tacanho. O povo não quer ser comunista. A alma de Portugal é pagã, mágica, celta, romana e moura. Jesus é apenas um dos deuses, ao lado do Benfica, Sporting e Porto. Maria está acima de Jesus pela melhor e mais teológica das razões: é mesmo a sua mãe, como sabem todos os que se reúnem em Fátima. Para o português, Deus santifica — mas, para o bom português, há santos e santinhos que despacham os requerimentos com mais celeridade do que a autoridade máxima. Por isso, pelo País fora, incluindo nas cidades, incluindo entre os doutos, corre solta a superstição e a irracionalidade taumatúrgica.
Todos dizem que os feriados são para descansar. Todos são tristes, pois. O trabalho de cada dia é que poderia ser um descanso, sinal de que tinha ficado bem feito. E devíamos passar os feriados em festa, chegando ao fim mais do que cansados: esgotados de tanto celebrar. Precisamos de um novo Céu, pois.
«Toda a literatura é uma homenagem à literatura» – este pode ser o ponto de partida para a abordagem deste livro (Editora Bertrand) que recolhe as crónicas assinadas por António Sousa Homem na Revista Notícias Sábado. Na crónica «O romance de uma vida» o autor explica que o seu pai «tinha pelo romance um desprezo discreto» porque tinha lido os nove volumes de «The life and opinions of Tristram Shandy, Gentleman» de Lawrence Sterne. Sendo António Sousa Homem «um botânico amador e um coleccionador de hibiscos» nunca poderia escrever um romance porque lhe falta o «temperamento trágico». Estas crónicas são (também) uma homenagem a esse antepassado remoto. Tristram Shandy tinha o pai Walter, a mãe, o tio Toby, o criado Trim, o Dr. Slop e o reverendo Yorick. Aqui temos o velho Dr. Homem, o pai, a sobrinha Maria Luísa, a empregada D. Elaine, a tia Benedita, o tio Alberto. Não vale a pena perder tempo a escrever um romance quando se pode desdobrar esse romance em capítulos semanais – as crónicas. O autor viveu numa casa com um retrato de D. Miguel na parede, teve um avô que simpatizava com o Dr. Brito Camacho e tem uma sobrinha que vota no Bloco de Esquerda. Retrata-se («Eu sou um velho minhoto«) e retrata o mundo: «O mundo pertence aos bravos que fintam a histórias e triunfam episodicamente; simplesmente, não sabem que a vida é apenas um episódio». O seu mundo começa na província: «A nossa pobre província era apenas pobre e insatisfeita; simplesmente, não o sabia e também não sabia como era ignorante, preguiçosa e emproada.» Chega de citações para recomendar um bom romance que não se anuncia como tal mas que, mesmo assim, não deixa de o ser.
Se há competição onde perder não envergonha, é nos Jogos Olímpicos. Perder é também uma festa, lá onde o melhor está em participar. Já desistir, mesmo a feijões ou a jogar à carica na minha rua, afecta o tecido e destino do Universo.
Minutos depois de ter falhado o acesso à final, anunciava o abandono da carreira e a desistência da prova dos 200 metros. Quanto ao abandono, é lá com ele. Quanto à desistência, está a ir-me ao bolso. Este nigeriano com passaporte de Portugal que tem vivido e treinado em Espanha é, infelizmente, demasiado parecido com muitos de nós.
Em menos de 6 meses, a SEDES publicou duas Tomadas de Posição. A primeira, em Fevereiro, teve grande sucesso. Apareceu no auge das crises na Saúde e Educação, juntamente com os casos BCP, ASAE, Lei do Tabaco, licenciatura/casas Sócrates, criminalidade no Porto e desastre Menezes. Foi o período de maior patologia colectiva de que há memória na democracia, à excepção do PREC, com tudo o que era cão a ladrar de raiva; e até pilares como António Vitorino vergaram. A Posição de Fevereiro foi, porém, um mero acto de oportunismo, em nada contribuindo para a resolução ou esclarecimento fosse do que fosse. Serviu para simular uma importância que a instituição não tem, justificando mais uns almoços bem servidos, e melhor regados, para aquela rapaziada. A natureza bacoca desta inútil associação foi exibida para lá de qualquer dúvida com a Posição de Julho.
Candeia que vai à frente alumia duas vezes.
Qual o significado deste provérbio, para ti?

Toca na imagem para ler melhor as sensatas palavras dos leitores do Público digital
As declarações de Fernando Rosas despertaram a fúria da turbamulta, a mesma que o Bloco diz representar: as vítimas do Poder. Acontece que os oprimidos andam é à nora com os algozes do contrapoder: os ladrões, violadores e assassinos que medram na arraia-miúda. Num fenómeno que espero esteja a ser estudado academicamente, a edição digital do Público tornou-se o poiso preferido dos analfabrutos. Gente que nunca passou muito tempo na escola, que odeia livros, que não lê semanários nem diários genéricos, e que a ler nunca escolheria o jornal do Zé Manel, ei-los a encher as caixas de comentários da entidade que se delira como referência do jornalismo. Estes novos comentadores, febris, não perdem uma notícia contra o Governo, contra algum elemento do Governo e, em alucinação e orgasmo, contra Sócrates. E se esta maralha tem enchido a pança e lambuzado as beiças com os gordurosos pratos anti-Sócrates confeccionados pelo Zé Manel, olá se tem. É com este material espasmódico, que dantes não chegava aos jornais em papel porque era deitado para o lixo, que se fazem diagnósticos para entreter SEDES e fomes várias.
Mas voltemos aos espinhos. A reacção às declarações de Rosas é um hino à racionalidade das multidões. Muitos dos votos do Bloco têm vindo desta mesma zona do eleitorado onde só há cegueira e ressentimento, frustração e impotência. É o chamado voto de protesto, mas devia antes chamar-se voto que não presta. A adesão deste eleitorado ao populismo e demagogia que o Bloco, CDS e PCP continuamente promovem explica-se por não lhes ser pedido esforço cognitivo, só descodificação emocional. Eis porque os dirigentes e representantes desses partidos aparecem invariavelmente zangados, mesmo muito zangadinhos coitadinhos, quando fazem declarações. Eles sabem que o conteúdo da mensagem nem irá ser entendido, muito menos dará origem a qualquer reflexão, mas que os tontos irão perceber, pelo rosto macerado e admoestações veterotestamentárias dos profetas da desgraça, que a luta continua e recomenda-se.
Os partidos adoram estes rebanhos dóceis, mantidos a palha e ordenhados nas eleições. Perante um Governo que surpreendeu por cumprir o desígnio reformista, os irresponsáveis à frente dos partidos da oposição, mais os comentaristas engajados ou despeitados, e ainda os adeptos da josémanuelfernandização, juntos têm estado, desde o Verão de 2006, a atiçar a barbárie que o anonimato e pulsão dos comentários na Internet permite expressar. Por isso — e perante um caso de actuação policial que pede investigação interna e pesar para todos os envolvidos — ter um responsável político a arrogar-se o conhecimento técnico do episódio, pretendendo tirar dele ilações sistémicas, é o grau zero de credibilidade para uma geração que merecia melhor memória. Não há milagre que o esconda.
Na fauna dos publicistas oficiais — esses que frequentam jornais, rádios e TV, trocando opiniões por dinheiro e/ou fama — há uns que se prestam com genuíno entusiasmo ao ridículo gabarola. São todos aqueles que botam faladura sobre política internacional. Dividem-se em dois grupos, e dois grupos apenas: os omniscientes e os lorpas. Os primeiros transmitem a ideia de estarem melhor informados do que os próprios agentes da situação em análise e conseguem antecipar o desfecho de qualquer berbicacho que lhes apareça à frente. Se discorrerem sobre o actual conflito na Geórgia, por exemplo, ficamos a acreditar que os EUA e a Rússia andam ali aos papéis e à espera do seu urgente conselho. Para o mesmo caso, os lorpas preferem citar enciclopédias e concluir pela impossibilidade da conclusão através de conclusões múltiplas. Ambos os grupos comungam de uma atitude nefelibata, condescendendo em lançar migalhas de superior intelecção para cima das audiências pasmadas.
Não tem mal, aborrece.
Picnic_Joshua Logan
No meio da década de 50 fez-se um filme que alguns têm a sorte de amar. Não é o caso deste cromo, mas é o meu, e o de muitas alminhas boas como a minha. Convém lembrar que a década de 50 contém os melhores 12 anos da História do Ocidente (década de 50: 1949 a 1961, pelas minhas contas). Havia transportes rápidos e combustível quase dado, toda a gama de electrodomésticos, casas de dois andares com quintal e cão, Invernos invernosos, miúdas giras e honestas com algum peso a mais nas partes mais à mão, e ainda completa ausência de grafitos nas cidades e vilas. Pelo menos é isto que tenho visto em filmes americanos, e não acho que logo os americanos fossem gastar tanto dinheiro com actores careiros e película nada barata só para mentir ao pessoal. Portanto, acredito nestas cenas até filme em contrário.
Joshua Logan é um ser do teatro. Talvez por isso, ou talvez por se filiar na longa tradição cinéfila que começa em Homero, encosta a câmara ao coração das personagens. E os actores fazem bater forte esses músculos abrutalhados. Foi assim que Rosalind Russel terá sacado a melhor representação da sua carreira, tendo recusado concorrer ao Oscar de actriz secundária para assim nos conquistar desvairada admiração. Foi assim que Kim Novak passou pelo fio da navalha, equilibrando passividade exterior e ebulição interior como em raras ocasiões terá sido alcançado. Foi assim que William Holden errou ao aceitar o papel para que erradamente o convidaram — e só esse duplo erro conseguiu dar corpo à errância da personagem.
De repente, fugazmente, passa uma imagem gloriosa com dezenas de melancias; imagem cuja existência e conservação é uma credível justificação para a criação do Universo. Estamos num piquenique. E depois, lá para a noite, há uma dança onde se aprende a dançar. First, you’ve got to set the rhythm. Ele marca o ritmo. A menina não dança porque ainda não tem idade, só tempo. Mas a rapariga está na idade e no tempo. Entra no ritmo, descompassado. Surpresa. E nova surpresa. Estar no mesmo ritmo com alguém é surpreendente, mas muito mais surpreendente é estar na mesma falta de ritmo. Na mesma falta de ritmo. A mesma, o mesmo. Então, aproximam-se. Porque há para onde ir. Um centro, um vazio. Ele não tem nada a ganhar. Ela o que mais quer é perder. Luzeiros de papel. Aren’t they graceful?… You used to dance like that, Flo.
Flo, vem dançar.
Se fizéssemos um referendo para a restauração da pena de morte, alguém sabe qual seria o resultado? E mesmo que ela fosse recusada, alguém arrisca uma percentagem? Os defensores do aborto votariam contra ou a favor da pena de morte?
Toda a gente exultou com a morte e abate dos assaltantes à dependência bancária do BES, incluindo aqueles que fingiram estar preocupados com a sua morte e abate. Fizeram-se alarves piadas e piadinhas nos blogues; assinadas, ainda por cima. Declarações dementes e alucinadas — com origem nos computadores de dois reformados em Abrantes e de um alcoólico filiado no PNR — encheram as caixas de comentários do Público. Enfim, houve uma descompressão geral por contraponto aos pavores securitários quotidianos, o que revela o quanto gostámos da limpeza da acção policial: desde a rapidez do desenlace até aos felizes resultados (só se partiu um vidro), passando pelo filmezinho bacana dos bacanos. O facto dos bandidos serem brasileiros é secundário, pois também iríamos curtir se fossem facínoras portugueses a pagar um juro demasiado alto pelo empréstimo de reféns — embora nesta versão curtíssemos menos, claro, até porque haveria família a chorar nos telejornais, vindo logo o PCP e o BE acusar Sócrates de violência policial salazarista sobre duas vítimas do imperialismo americano e do novo Código Laboral, e as coisas acabariam por ser um bocadinho chatas derivado da portugalidade inibir as chalaças mais espontâneas do povoléu. O ideal era que os meliantes fossem pretos de segunda ou terceira geração, à volta dos 20 anos. Isso teria um gostinho especial. Só que pretos de segunda ou terceira geração, à volta dos 20 anos, é muito provável que não sejam tão imbecis como estes sambistas. Aliás, o ideal absoluto consistiria num duo constituído por um preto e um cigano, ambos da Quinta da Fonte. Par mais lindo e sociologicamente consensual não é possível imaginar. Terem saído na rifa brasileiros desperados é muito bom, impecável mesmo, sendo até melhores do que os robustos ucranianos ou manhosos romenos. Isto não se resumiu a ter as armas apontadas e já está, não não, também tivemos sorte com a raça dos alvos.
Só o CDS é que acaba por ter azar, pois desta vez não pode meter requerimento para que o ministro da Administração Interna vá ao Parlamento passar uma tarde na brincadeira. Pode é queixar-se informalmente de dano económico para o Estado, relativo às despesas hospitalares causadas pela sobrevivência do pistoleiro. E Portas terá ocasião para fazer mais um dos seus brilhantes brilharetes, vindo airoso falar-nos da pontariajacking.
O nosso amigo Rui teve a gentileza, e o supino bom-gosto, de nos oferecer novo espancamento, frementes carícias:
NERVOS D’OIROMeus nervos, guizos de oiro a tilintar
Cantam-me n’alma a estranha sinfonia
Da volúpia, da mágoa e da alegria,
Que me faz rir e que me faz chorar!Em meu corpo fremente, sem cessar,
Agito os guizos de oiro da folia!
A Quimera, a Loucura, a Fantasia,
Num rubro turbilhão sinto-As passar!O coração, numa imperial oferta.
Ergo-o ao alto! E, sobre a minha mão,
É uma rosa de púrpura, entreaberta!E em mim, dentro de mim, vibram dispersos,
Meus nervos de oiro, esplêndidos, que são
Toda a Arte suprema dos meus versos!






